Barack Obama – o homem mais poderoso do mundo

"o mundo mudou, e precisamos mudar com ele"

"o mundo mudou, e precisamos mudar com ele"

A missão

Foram 35 palavras para Barack Hussein Obama. Para Chloe Washington, foram 33 anos.

Desde que se inscreveu como eleitora, aos 18 anos, a funcionária pública de Chicago se perguntava se viveria para ver transformadas em realidade as palavras do reverendo Martin Luther King Jr.: “Sonho que meus quatro filhos viverão um dia em um país no qual não serão julgados pela cor de sua pele, mas por seu caráter”.

– Este é o dia mais feliz da minha vida – disse Chloe, comparando a emoção sentida ontem, em Washington, à que experimentou ao dar à luz seu filho.

Psiquiatra negra de 41 anos, da Carolina do Norte, Trina Allen recuou ainda mais no tempo ao falar sobre os motivos para enfrentar o frio de 5°C negativos:

– Meus pais foram criados no sul do país quando ainda existia a segregação, e eu cresci ouvindo histórias de como não podiam entrar nos restaurantes e tinham de ficar na parte de trás do ônibus. Estou aqui por eles e também pelos meus avós. Queria que estivessem vivos para poder ver este momento.

Ouvidos numa pesquisa da CNN, ontem, 69% dos entrevistados negros fizeram eco a Chloe e Trina: o sonho de Luther King, para eles, se concretizou. Foi um desses momentos primordiais em que a história pareceu estar em marcha nas estações de trem, nos pubs, nas esquinas. As ruas de Washington se encheram com mais de 1 milhão de pessoas galvanizadas pela chegada do primeiro afro-americano à presidência dos Estados Unidos. Em 1981, a posse do presidente Ronald Reagan atraiu 500 mil pessoas a Washington, enquanto a posse de Bill Clinton, em 1993, mobilizou 800 mil.

Foi uma migração em massa que começou ainda de madrugada. Às 6h, em Washington, as ruas já haviam sido invadidas por uma população em marcha lenta, com um único destino: o The National Mall, a área central em frente ao prédio do Capitólio convertido em palco de horas que os EUA – e o mundo – jamais esquecerão.

Estava formada a Rede Obama. Convertidas em megabits e canalizadas por cabos de fibra óptica e satélites, as cores da festa nos EUA deram a volta ao mundo e desaguaram em Jacarta, na Indonésia, onde desde a manhã vendedores de rua preparavam arroz frito batizado com o nome do novo presidente. Ou em Sadr City, bairro xiita de Bagdá, onde a maioria dos habitantes se autoflagela a cada ano num feriado consagrado a um imã do século 7 de quem Obama carrega o nome. Ou nas margens do Lago Vitória, no Quênia, onde Samson Wakoli, trabalhador de 26 anos, um dos milhares a assistir ao discurso do novo ocupante da Casa Branca, dizia:

– Esperamos tanto tempo. Deus é bom, Deus é bom, Deus é bom.

Em carta a Obama, o ex-presidente da África do Sul Nelson Mandela definiu o dia de ontem como “verdadeiramente histórico”. Lonnie Ali, mulher do ex-campeão mundial de boxe Muhammad Ali, que sofre do mal de Parkinson, disse que o novo presidente “herdará o mundo sobre os ombros, e é um peso muito mais pesado do que o que Muhammad teve de enfrentar”. O desafio de se tornar o 44º presidente dos Estados Unidos foi enfrentado com serenidade pelo protagonista do dia. Um pouco sério no início da cerimônia, ao aparecer nas escadarias do Congresso, Obama cumpriu os ritos que lhe encargam da missão.

– Eu, Barack Hussein Obama, juro solenemente cumprir fielmente as funções de presidente dos Estados Unidos e, na medida de minhas possibilidades, salvaguardar, proteger e defender a Constituição dos Estados Unidos – jurou.

Mas, aos poucos, o presidente foi se permitindo ser o Obama de sempre: traído pela emoção, titubeou na leitura do texto e sorriu, para delírio da multidão. Após o juramento, o mais esperado discurso dos últimos anos nos Estados Unidos durou 20 minutos.

– Nós precisamos refazer a América – disse.

Às margens da Avenida Pensilvânia, por onde passaria horas depois, se fez silêncio. Um militar deixou de lado o olhar sisudo e se permitiu uma foto como recordação. Touca preta com o nome do presidente gravado, Catherine Cooper, 27 anos, levou um radinho de pilha, e logo se formou uma roda ao redor dela. Ouviu a oração do Pai Nosso de mãos dadas com aqueles anônimos que comungavam do mesmo momento. E chorou quando Obama falou duas das frases mais marcantes do dia:

– O mundo mudou, e precisamos mudar com ele.

O presidente lembrou as crises que o país vive, mencionou que os EUA estão envolvidos em guerras contra o ódio e a violência e com problemas econômicos. Antes mesmo de prestar juramento, ao meio-dia (15h em Brasília), Obama se tornou presidente oficialmente, seguindo o que diz a Constituição do país. Ele prestou juramento às 12h6min (15h6 de Brasília) com a mão sobre a mesma Bíblia usada em 1861 por Abraham Lincoln. Uma cena paralela, flagrada pelas câmeras da CNN e exibidas nos telões, quebrou a sisudez do protocolo: enquanto o pai falava, uma das filhas do presidente passou a câmera fotográfica digital para o vice Joe Biden bater uma foto de Obama de mais perto.

Nem o tom sério com o qual Obama se dirigiu aos americanos em seu discurso de posse desanimou a plateia. Talvez por isso mesmo, a oportunidade foi perfeita para a propaganda de causas já abraçadas pelo novo presidente. E foi o que fizeram membros do Greenpeace, que distribuíam folhetos sobre o aquecimento global, assim como ativistas de múltiplas entidades, algumas pedindo o fim da guerra no Iraque, o fim da especulação financeira ou a estipulação de um teto para as emissões de gases do efeito estufa.

Outras saíam em defesa dos veteranos de guerra, dos negros, das mulheres e até da fé. Com um megafone, um membro de uma igreja, que não quis se identificar, fazia a advertência que muitos analistas repetiram ao longo das duas últimas semanas em praticamente todos os jornais do país:

– Cuidado com as expectativas em torno do messias negro! Messias, só há um!

Do meio do público, vinha o contraponto:

– Os dias de fundamentalismo cristão acabaram!

A agitação só cresceu durante a parada presidencial, acompanhada por milhares de pessoas espalhadas ao longo da Avenida Pensilvânia ao fim do discurso de posse. Apesar das ameaças de antentado – o FBI (polícia federal americana) investigava há dias uma suspeita de trama para promover um atentado no dia de ontem –, Obama e Michelle se recusaram a permanecer dentro da limusine blindada presidencial e surpreenderam ao descer duas vezes do carro durante o cortejo. Os dois andaram a pé e saudaram o público durante cerca de 10 minutos num trecho de quatro quarteirões da Pensilvânia, e num trecho menor da mesma avenida em frente à Casa Branca.

Mais de 10 mil pessoas desfilaram para o presidente, representando 90 instituições estaduais, de colégios a academias militares. Alguns eram diretamente ligados à história do presidente eleito, como a Punahou Marching Band, da escola de mesmo nome, onde estudou o jovem Barack Obama durante a década de 1970. Com um grande sorriso, Obama saudou os alunos da escola com a saudação “hang loose” – o punho fechado com o polegar e o dedo mínimo estendidos –, gesto tornado famoso pelos surfistas.

Durante um dos jantares em honra do novo presidente, houve uma nota triste: o veterano senador democrata Edward Kennedy, 76 anos, irmão do presidente John F. Kennedy e de Robert Kennedy, ambos assassinados nos anos 60, sofreu um mal-estar e teve de ser conduzido de maca para um hospital. O ex-vice-presidente Walter Mondale disse que o senador contava anedotas aos companheiros de mesa quando, de repente, parou de falar e deixou todos em choque.

Kennedy, que padece de um tumor cerebral, driblou as limitações físicas para comparecer à convenção democrata, amparado pela família, e fazer uma manifestação emocionada de apoio a Obama. Ele passa bem e deve receber alta hoje.

Em 28 de agosto de 1963, foi da outra extremidade do National Mall, distante três quilômetros do local da posse, que Martin Luther King sonhou. No Memorial Lincoln inspirou uma geração de sonhadores. Agora, Obama transformou a visão de Luther King em realidade e missão. Passado e presente se uniram num mesmo local e data: Washington, 20 de janeiro de 2009.

**Naldo**

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